24/11/2016

Cheiro de liberdade

Foto via Pinterest

Na primeira vez que eu a vi, ela foi como um refresco no deserto.

Eu estava ferido, tinha sido castigado por roubar alimento para alimentar a minha família. As marcas da chibata sangravam em minhas costas, mas eu mal sentia, a dor no meu coração anestesiava o meu corpo.

Eles tinham matado meu irmãozinho e os meus pais bem ali na minha frente, depois me bateram e me trouxeram até aqui.

E foi então que eu a vi.

Ela cuidou dos meus ferimentos. Provavelmente, a tinham obrigado a fazer aquilo, mas ainda assim, ver aqueles olhos amendoados me fez querer sorrir outra vez.

Ela não me olhou nos olhos, nem ao menos disse uma palavra. Apenas terminou seu trabalho e se foi.

Assim que eu pude ficar de pé outra vez, eles me obrigaram a trabalhar, em troca da vida e de um pouco de comida insossa. Eu teria escolhido a morte, mas resistia todos os dias, porque tinha a esperança de vê-la outra vez.

Mas isso nunca aconteceu, não até aquele momento.

Eu havia sido preso por cometer um erro no trabalho, um erro bobo, mas eles me castigaram para servir de lição aos outros. Não era primeira vez que isso acontecia comigo e nem seria a última, pelo menos era isso que eu achava.

A porta da prisão se abriu e eu achei que eles estavam trazendo algum dos trabalhadores, mas meu coração quase parou quando eu a vi.

Ela estava suja, a cabeleira de cachos escuros era mais um emaranhado de terra e folhas, mas aqueles olhos amendoados continuavam vivos e fortes como da última vez que eu a tinha visto.

Acorrentaram os pés, exatamente como tinham feito comigo há poucos minutos, e saíram, nos deixando trancados ali.

Ela não disse nada, ficou apenas encarando um ponto fixo, nem mesmo no fim do dia, quando trouxeram a comida - se é que podemos chamar aquela gororoba de comida - ela não esboçou nenhuma reação.

Depois de algum tempo, quando me pareceu que ela continuou imóvel, eu quebrei o silêncio:

- Você deveria comer um pouco.

Ela me olhou um tanto surpresa, como se só agora tivesse notado a minha presença.

- Não estou com fome - ela disse com uma voz doce, porém firme.

Sorri, não pude evitar, era a primeira vez que eu ouvia a voz dela e era tão linda.

- Você está sorrindo - ela disse me olhando com o cenho franzido.

- A sua voz - eu disse, ainda sorrindo - parece música. Eu fiquei me perguntando como ela seria desde a primeira vez que eu lhe vi. Você não deve se lembrar - acrescentei.

Depois de alguns minutos de silêncio, ela respondeu baixinho:

- Eu lembro.

Então foi a minha vez de ficar surpreso.

- Lembra? Você cuida de tantos feridos que eu achei que...

- Você era diferente - ela disse, sem me olhar - todos eles gritavam de dor, alguns até desmaiavam, mas você nem parecia sentir, isso me chamou atenção. - Ela virou para olhar nos meus olhos - O que eles fizeram pra você.

- Eles me tiraram tudo - meus olhos marejaram com a lembrança. Contei-lhe sobre a minha família.

Quando terminei de falar, havia lágrimas nos olhos dela.

- Eu sinto muito - seus olhos diziam que ela sentia mesmo.

Assenti.

- E você, porque está aqui? - perguntei.

- Eu fugi - ela disse, a voz sem demonstrar nenhuma emoção.

- Fugiu? - Me surpreendi outra vez. Todo mundo sabia que não tinha como fugir daquele inferno. E mesmo que alguém conseguisse fugir, não tinha pra onde ir, além das fronteiras só havia destruição.

- Eu sei que parece loucura. - ela enrolava um arame pequeno nos dedos, enquanto falava - Um pouco antes de morrer, a minha mãe me falou sobre a liberdade, ela viveu em um tempo onde todo mundo era livre. Então depois que ela se foi, eu fiquei alimentando esse sonho de conhecer a liberdade. - juro que vi brilho nos seus olhos quando ela falava - Fico me perguntando qual o cheiro, qual a cor da liberdade. Foi por isso que eu fugi e vou continuar fugindo.

- Mas eles vão acabar matando você.

Ela deu de ombros.

- E pra onde você pretende ir? Todos sabem que além das fronteiras...

- Isso é o que eles dizem - ela me interrompeu - além do mais, qualquer coisa é melhor do que viver nesse inferno.

Não pude discordar.

Nossa conversa foi interrompida pelo guarda noturno, que veio recolher os pratos. Ele foi rápido e sequer nos olhou.

Foi então que eu tive uma ideia.

Parecia loucura, ainda mais porque colocaria nossas vidas em risco, mas, como ela tinha dito, qualquer coisa seria melhor do que viver naquele inferno e eu estaria lá para protegê-la.

Contei a ela sobre a minha ideia e ela topou de imediato, com uma determinação no olhar que eu nunca tinha visto antes.

Teríamos que agir naquela mesma noite. Pela pressa do guarda, aquela deveria ser a noite em que eles se reuniam com o patrão e isso só acontecia uma vez por mês. Nessas noites, os guardas revezavam os turnos, para que todos participassem, então às vezes, alguns postos ficavam um tempinho sem proteção.

O primeiro problema que enfrentaríamos seriam as algemas, mas como bom ex-ladrão que eu era, abrir uma fechadura não seria exatamente problema. Peguei o pequeno arame que ela tinha nas mãos e, depois de pouco tempo estávamos os dois de pé em direção à porta.

Como eu desconfiei, na entrada da prisão só tinha um guarda e ele parecia bem entediado, por isso nem notou quando enlacei seu pescoço com a corrente das algemas. Segurei sua boca para que não gritasse e quando ele perdeu os sentidos, o sentei novamente na porta da cadeia. Qualquer um que passasse por ali, acharia que o guarda estava tirando um cochilo, isso nos daria um pouco mais de tempo.

O terreno estava vazio. Os trabalhadores já estavam dormindo e os guardas deveriam estar na reunião.

Nos esgueiramos pela escuridão até alcançar a floresta e começamos a andar devagar. Como ela conhecia a floresta melhor que eu, tomou a frente, nos guiando pelo melhor caminho até a fronteira.

Caminhávamos tentando não fazer barulho, próximo as árvores quando ela parou de repente.

Apontou discretamente para a frente e eu pude ver a silhueta do guarda. Aproximei-me devagar e notei sua expressão ansiosa, ele estava esperando o homem que assumiria o próximo turno.

Depois do que pareceu ser uma eternidade, ele enfim saiu do posto. O outro devia estar chegando, então quando ele sumiu na escuridão, caminhamos rapidamente e passamos daquele posto.

Mas parece que não foi rápido o suficiente.

- Ei, vocês dois, parem imediatamente - o grito grave reverberou pela floresta.

Ela segurou a minha mão e percebi que estava fria, não sei se de medo ou do ar gelado da noite.

Eu estava com medo, com muito medo. Se fôssemos pegos, Deus sabe o que fariam conosco.

Entrelacei meus dedos aos dela, tentando afastar aqueles pensamentos.

Seus olhos encontraram os meus e eu vi coragem. Eu também sentia aquela coragem.

Ali com os dedos entrelaçados aos dela, senti que estávamos prontos até para conquistar o mundo.

Então, antes que eu pudesse pensar, estávamos correndo outra vez, o mais rápido que pudíamos, em direção às fronteiras.

Não olhamos para trás, mas pelo som dos passos, sabíamos que outros soldados já tinham sido avisados.

Olhei para a frente e parei, um segundo depois, ela parou também e pelo pavor que vi em seus olhos, soube que ela viu o mesmo que eu.

Havia um abismo à nossa frente. Um abismo grande e escuro.

Olhei para trás e  um grande grupo de soldados corria em nossa direção, um pouquinho mais e eles nos alcançariam.

Caminhamos devagar até estarmos na beira daquele precipício. Aquele era o fim. Era por isso que diziam que além das fronteiras havia destruição.

Voltei os meus olhos para ela e vi que lágrimas desciam pelo seu rosto.

Então, ela soltou a minha mão e abriu um sorriso, o mais lindo que eu já tinha visto na vida.

Virou para o abismo.

E pulou.

Fiquei atônito, o coração martelando no peito. Quase pude ouvir a voz dela repetindo "Qualquer coisa é melhor do que viver nesse inferno".

Os soldados estavam a menos de três passos de distância.

Uma lágrima quente escapou e rolou pelo meu rosto. Respirei fundo. Tomei coragem.

E pulei.

Achei que encontraria a morte, mas me enganei. Não era o fim, pelo menos não ainda.
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Esse texto faz parte do projeto Não Somos Escritores. O tema do mês foi: "Com os dedos entrelaçados, eles estavam prontos para conquistar o mundo."

Conheça outros blogs participantes: Thoughts an Adventures | Bela Psicose | Matando Vespas

PS: Esse texto vai ter uma continuação/parte 2, aguardem. Acabou que ficou muito grande para uma postagem só.

Beijos e até a próxima!

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Postado por Ellem Barboza

Pernambucana, cristã, leitora compulsiva, viciada em música e colecionadora de primaveras e sonhos.



1 comentários

  1. Elleeem, como é que você para logo aí? Amei! Achei maravilhoso e espero que tenha final feliz para esses dois <3
    Beeijos

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