27/07/2016

Era uma vez - Parte 1

Foto via Pinterest

Já tinha um tempão que eu estava naquela mesma página do livro, tentando, em vão me concentrar na leitura.

Mas como conseguir se concentrar em qualquer outra coisa, quando o amor da sua vida está ali morrendo na sua frente e você não pode fazer nada?

Uma lágrima teimosa rola pelo meu rosto e eu a enxugo rapidamente. Prometi a ele que seria forte, mas não tem sido nada fácil.

Seguro a mão dele, toco o seu rosto, mas ele não esboça nenhuma reação. Meu coração se aperta ainda mais dentro do peito.

“Ele está inconsciente”, relembro as palavras do médico, “agora é só uma questão de tempo, infelizmente não há mais nada a se fazer”.

As lágrimas começam a cair novamente. É impossível ser forte!

- Lara, querida, você precisa descansar um pouco. - Ana está parada na porta me olhando carinhosamente.

Ana é uma enfermeira do hospital que acompanha a nossa saga desde que o Vicente começou o tratamento. Já foram tantos internamentos aqui, que acabamos ficando amigas. Ela é uma daquelas pessoas de ouro que não surgem na nossa vida por acaso.

-Ah, Ana - suspiro - eu não quero deixá-lo aqui sozinho. O doutor Felipe disse que ele pode...partir... a qualquer momento.

As lágrimas começaram a brotar novamente e a Ana me abraçou, sem dizer nenhuma palavra.

- Vamos fazer o seguinte - Ana disse, depois que eu consegui me acalmar um pouco - vá até a cafeteria do hospital e coma alguma coisa, não vi você comer nada o dia todo. E enquanto isso, eu fico aqui com o Vicente e, se acontecer qualquer coisa, eu te ligo.

Eu realmente não tinha comido nada o dia inteiro e meu estômago já estava começando a reclamar.

-Tudo bem, Ana, eu vou. Muito obrigada - eu disse tocando levemente em seus cabelos grisalhos - por tudo.

Ela apenas sorriu.

Eram quase 2h da manhã e a cafeteria estaria vazia, se não fosse a funcionária sonolenta e um senhor sentado em um dos cantos.

Fiz o meu pedido e fiquei aguardando em uma mesa próximo ao balcão.

Girei o anel de noivado que o Vicente havia me dado há alguns meses, quando o hospital não era a nossa segunda - quase primeira - casa.

Suspirei.

Eu faria qualquer coisa para que aquele tempo voltasse.

A garçonete me chamou, avisando que o meu pedido estava pronto. Fui até lá, peguei a comida e voltei. Quando coloquei a bandeja em cima da mesa, alguma coisa no chão me chamou atenção. Era um papel meio amarelado.

Estranho! Como eu não notei aquilo antes, será que alguém colocou ali quando eu fui buscar o meu pedido? Olhei em volta, mas o senhor continuava bebericando seu café e a moça já estava cochilando outra vez.

Abaixei e peguei o papel, curiosa. Estava cuidadosamente fechado e quando eu abri, um caroço de feijão caiu no meu colo.

Ok, aquilo estava realmente ficando estranho. Comecei a ler o que estava escrito no papel:

"Olá Lara, eu sei que você está passando por um momento difícil, mas acho que tenho a solução. Existe um lugar onde as coisas costumam se resolver em um passe de mágica, lá você certamente encontrará a cura para o câncer de Vicente.
Para chegar até lá, você deve ir até um local reservado e ler a mensagem que está no verso deste papel. Enquanto estiver lendo segure bem o feijão na sua mão, pois ele será a chave para você voltar para casa.
Tenha cuidado e boa sorte, o destino do seu amor está em suas mãos."

Terminei de ler aquele bilhete boquiaberta, alguém deveria estar de brincadeira comigo, uma brincadeira de muito mau bosto, por sinal. Olhei mais uma vez ao meu redor, mas tudo o que eu vi foi o mesmo cenário de antes.

Tornei a ler o bilhete incrédula.

Estava prestes a amassá-lo, quando uma senti uma sensação estranha. "E se for verdade", pensei, "Se realmente existir alguma coisa que eu possa fazer para salvar o Vicente". E de repente, eu precisava tentar. Podia ser uma pegadinha ridícula, mas também podia ser verdade.

Agarrei a minha bolsa e o feijão e corri para o banheiro.

Olhei no espelho.

- Eu devo mesmo estar ficando louca - Disse em um sussurro.

Respirei fundo e recitei as palavras que estavam no verso do papel. Estavam escritas em um idioma que eu não conhecia, mas eu li do jeito que pude.

Nada aconteceu.

Devia ser mesmo uma brincadeira de mau gosto.

Li de novo.

Nada.

Peguei a minha bolsa, o maldito papel junto com o feijão e saí marchando em direção à cafeteria. Eu ia descobrir quem foi o maldito que fez aquela brincadeira comigo. E ele iria me pagar caro! Não se pode brincar assim com o sofrimento alheio.

Porém assim que botei o pé para fora do banheiro, vi que nada estava como antes. A cafeteria tinha mudado, as mesas estavam em uma disposição diferente e no lugar da garçonete sonolenta, havia uma garota de cabelos escuros longos, com mechas vermelhas. Tocava uma música ambiente e tinham, pelo menos uns 10 clientes, incluindo algumas garotas com saias minúsculas

Parei imediatamente.

Como aquilo tinha acontecido? aquele lugar definitivamente não era a cafeteria do hospital.

Olhei para o papel na minha mão, mas, de repente, não tinha mais nada escrito.

- Então, aconteceu mesmo - sussurrei, espantada.

Antes que eu me desse conta, uma moça loira se aproximou de mim, me avaliando discretamente.

- Olá! - ela exclamou, com um sorriso claramente forçado - de que parte da cidade você é? Não me lembro de tê-la visto por aqui antes.

- Na verdade, eu acabei de chegar - respondi um pouco nervosa.

- Acabou de chegar? - Ela perguntou, surpresa - como assim?

-Bem.. eu... - gaguejei

- Ok, acho que começamos com o pé esquerdo - ela disse, percebendo o meu desconforto. - Meu nome é Emma Swan, sou a xerife da cidade - ela estendeu a mão em um cumprimento.

- Xerife? - Sorri nervosamente, será que eu ia ter problemas logo ao chegar naquele lugar misterioso? Será que aquilo tudo tinha sido uma armadilha? - Eu sou Lara Albuquerque - falei respondendo ao seu cumprimento.

- Muito prazer, Lara, Seja bem-vinda a Storybrooke, porque não sentamos para tomar um chá - sugeriu.

- Storybrooke - pensei alto. Que tipo de lugar seria aquele?

Espiei Emma discretamente. Será que eu podia confiar nela? hesitei por alguns segundos.

"Ok, eu acabei de me teletransportar para uma cidade desconhecida através de um papel mágico estranho, que agora está apagado em minha mão. Eu podia estar sonhando, na verdade, isso certamente deve ser um sonho, mas se há uma ínfima possibilidade de salvar o Vicente, eu tenho que tentar." Pensei, só agora me dando conta que eu tinha ficado parada olhando para o nada por tempo demais.

- Claro - respondi à Emma, que já me olhava desconfiada - vamos sim.

Sentamos em uma mesa e logo após a garota de mechas vermelhas anotar os nossos pedidos, Emma começou a falar.

- Olha Lara, eu vou ser direta. Digamos que Storybrooke seja uma cidade um tanto peculiar e nós não recebemos visitantes frequentemente então, eu preciso saber quem é você e como e porque chegou até aqui.

Fiquei um pouco assustada com as palavras dela, mas resolvi abrir o jogo.

- Eu não sei exatamente como eu vim parar aqui. Na verdade, há 5 minutos atrás, eu estava no banheiro da cafeteria de um hospital, eu nem sabia que essa cidade existia. Enfim, eu estou um pouco nervosa e assustada. - sorri nervosamente. - Mas vou contar do começo.

Falei tudo para ela, desde o câncer do Vicente até aquele bilhete estranho na cafeteria.

- Eu sei que parece loucura, mas eu precisava tentar salvar o meu amor, não consigo nem imaginar como será a minha vida sem ele. - Concluí em lágrimas.

Emma também tinha os olhos marejados e isso me encorajou ainda mais a confiar nela.

- Isso que você está fazendo é um lindo ato de amor, Lara e eu conheço alguém que pode te ajudar a conseguir um remédio para o seu noivo.

___________

Continua...


Essa postagem faz parte do projeto Mais Que Palavras, onde todos os meses escrevemos sobre um tema diferente. O tema de Julho é: Criar uma história dentro do seu universo favorito. 

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Beijos e até a próxima!



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Postado por Ellem Barboza

Pernambucana, cristã, leitora compulsiva, viciada em música e colecionadora de primaveras e sonhos.



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