22/06/2016

{Conto} 365 dias - Joice Lourenço


Oi Gente, tudo bem com vocês?

A Joice Lourenço, autora parceira do Colecionando Primaveras liberou um conto super lindo para vocês lerem: 365 dias.
Lembrando que o e-book desse conto também está disponível na Amazon.

Dito isto, vamos ao conto...

Era meia-noite. Os sinos tocaram anunciando a imensidão da escuridão. Ao redor, apenas um silêncio revelava que a qualquer momento algo poderia acontecer. Luís pegou rapidamente um bilhete e leu. Isso foi o suficiente para manter-se vivo mais um dia. Todo manhã era a mesma coisa, pegava um bilhete que sua amada Ana havia escrito antes da guerra, para que lesse todos os dias. Sabia que isso não o protegeria, mas era a única forma de manter viva a promessa de que voltaria vivo para sua amada. Entretanto, ele não conhecia o que o destino lhe reservava. Nem ela.
Um ano havia se passado e Ana recebeu a primeira carta de seu amado. Estava exultante, aquilo só provara que ainda estava vivo. Graças a Deus!, pensou ao abrir a carta, e seu sorriso foi ainda maior ao ver que ele queria se casar; tudo já estava planejado, apenas precisava ir ao cartório no dia combinado. Sem dúvida estaria lá. Aproximou-se de sua velha mesa e respondeu aquela carta com as palavras mais lindas que poderia encontrar, declarando o quanto estava ansiosa pelo dia em que estariam juntos novamente.

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Ana olhava para aquele homem como se visse um fantasma. Aquele não era o seu Luís. Onde ele estava? Olhou para a assinatura e então compreendeu, havia se casado com um Luís, mas não era o seu verdadeiro amor. Sim, ela sabia que havia feito isso. Percebeu que ele não era o seu amado e, ainda assim, aceitou se casar. Por que fizera isso? Não tinha cabimento algum. Talvez porque sabia que o seu verdadeiro amor partira para sempre. Não queria ficar sozinha e seu pai nunca mais voltou, mesmo com o fim daquela revolução. As dificuldades derrubaram muitos senhores e agora estava sem emprego e completamente sozinha no mundo. Havia dito “sim” apenas para não ficar só naquele mundo. Mas como amar alguém desconhecido quando seu coração batia por apenas um homem?
Naquela primeira semana de casados, Luís não tocou em Ana, pelo contrário, mostrou as 365 minicartas que estavam com ele, deixando-a surpresa. Ele contara que se apaixonara através daqueles pequenos bilhetes. Um soldado havia lhe entregado antes de morrer, e dito que ele era o homem certo para assumir aquela missão, cuidar da garota dos bilhetes. Deu a entender que Ana o admirava. Jamais contara que era sua amada. Luís o fez prometer que cuidaria dela como se fosse a coisa mais preciosa, ele concordou e cada dia que lia um bilhete algo florescia em seu coração e dava forças para ir de encontro àquela mulher. A cada dia Luís clamava para que Deus estivesse guardando-a. Agora a guerra havia cessado e estava com Ana. Compreendeu a verdade assim que lágrimas escorreram pelos olhos de sua esposa. Ela nunca mandou aqueles bilhetes para ele, mas, ainda assim, a amava.
Um mês havia se passado. Ana sabia o quão cavalheiro era o seu marido, mas naqueles dias a única coisa que conseguia sentir era raiva. Raiva por seu Luís não estar mais ali, raiva pelas pequenas cartas terem parado nas mãos erradas, raiva pelo que o destino lhe fizera. Afundou-se em sua tristeza e em seu luto pessoal enquanto fazia as coisas que toda dona de casa deveria fazer. Se aquele sujeito estranho a estava salvando de uma vida miserável, ao menos poderia tentar fazer as coisas certas. Mas a paciência que ele demonstrara a estava deixando indignada. Como ele poderia continuar calmo daquele jeito, ainda mais sem tocá-la, quando poderia e deveria? Era a sua obrigação como esposa. Naqueles dias Ana descobriu que ele a amava sem ao menos pronunciar aquelas palavras.
Porto Alegre estava se recuperando. Os estados do sul voltaram a fazer parte da república do Brasil e agora as famílias tentavam reconstruir suas vidas, algumas aprendendo a conviver com a perda de um ente querido e outras aceitando a realidade. Ana precisava aprender a conviver com os dois. Seu marido era um belo homem em todos os sentidos, porém, não tinha forças para amá-lo. Sua indignação era maior que isso. A vida fora injusta com ela.
Em um final de tarde enquanto começava a fazer o jantar, sentiu mãos fortes a tocarem suavemente nos ombros. Ela respirou fundo e ficou quietinha enquanto escutava a voz grave de seu marido:
— Sei que você não me ama, Ana. Mas estou disposto a esperar até que isso aconteça. Assim como aprendi a te amar durante todos os 365 dias em que li aqueles bilhetes, quero me esforçar a fazer o mesmo.
Ela virou-se lentamente e o fitou. O que ele queria dizer com aquilo? Ele abriu um sorriso tímido e disse antes de voltar para a sala:
— Irei te escrever todos os dias, até você me amar, e só tocarei em você quando esse dia chegar.
Ana achou aquilo impossível. Luís não se importou com seu semblante fechado durante os meses seguintes. Conforme ele deixava um bilhete ao lado da sua cama a cada dia, ela sorria, achando aquilo engraçado e, no íntimo, apenas pedia a Deus: “Me ajude a amá-lo”. Lembrou-se do que seu pai sempre lhe falara, o amor era uma decisão, e aquilo a fortaleceu. A cada bilhete que recebia, novamente sussurrava: “Me ajude a amá-lo”. Os dias foram passando e sua oração foi mudando: “Eu vou te amar, Luís”, e no fim daqueles 365 dias, ela enfim se ouviu dizer as palavras que jamais pensou em falar para outro homem:
Após se deitarem na noite de sábado, inconscientemente Luís a envolveu em seus braços como fazia algumas vezes. Sempre que ele percebia, se afastava em respeito, mas dessa vez algo aconteceu. Ela segurou suas mãos, impedindo-o de se afastar. Ele sorriu, Ana retribuiu e deixou que algumas lágrimas caíssem.
— Já passaram os 365 dias e você continua mandando bilhetes. Obrigada por me esperar! Talvez nunca entenda o que o destino fez com a gente, mas uma coisa ele me ensinou — Seu marido a fitou carinhosamente —, a te amar como jamais imaginei que seria possível.
Ela acariciou seu rosto enquanto Luís a beijou, demonstrando todo o amor que sempre estivera guardando. Naquele dia ela entregou-se completamente a ele, assim como cada dia de sua vida.
Fim

E então, o que vocês acharam, eu amei! só queria mesmo que tivesse mais ❤
Beijos e até a próxima!

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Postado por Ellem Barboza

Pernambucana, cristã, leitora compulsiva, viciada em música e colecionadora de primaveras e sonhos.



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