21/03/2016

Às vezes, é preciso fazer coisas ruins


Eu sempre me considerei uma pessoa muito decidida.

Nunca fui de dar pra trás nem de titubear nas minhas decisões. Até agora.

Sentada no meu carro, encarando o volante, eu sinto todas as minhas certezas ruirem como um castelo de areia.

Enxugo as mãos suadas nas pernas da calça jeans e sinto uma vontade enorme de ligar o carro outra vez e pegar o primeiro retorno pra casa.

Respiro fundo, tentando me acalmar, e me forço a lembrar o motivo pelo qual estou aqui.

Desde criança, eu sempre soube que não era biologicamente filha dos meus pais, que havia sido adotada por eles quando tinha apenas alguns dias de vida.

Isso nunca foi um problema pra mim, nunca fui uma garota rebelde, frustrada nem nada disso.

Sempre recebi muito amor e carinho dos meus pais, que são os melhores do mundo.

Mas existe uma lacuna dentro de mim, uma necessidade de saber quem são os meus pais biológicos e porque desistiram de mim. É uma necessidade que eu não consigo explicar, só consigo sentir.

Um dia, eu acordei e decidi que iria procurar por eles. E agora, depois de quase 4 anos de busca, aqui estou, parada em frente ao número 350 da Rua das Flores em uma cidadezinha há cerca de 200km da minha casa, pensando se estou mesmo fazendo a coisa certa.

Em um rompante de coragem, abro a porta do carro e me dirijo à casinha de paredes azuis.

Dou duas batidas leves na porta branca e logo uma senhora aparentando uns 50 anos aparece, usando um vestido florido de alças finas, na altura dos joelhos. Os cabelos castanhos, com fios grisalhos ondulados estão presos em um rabo de cavalo alto e um pouco bagunçado.

Engulo em seco duas vezes antes de lhe perguntar:

- Aqui é a casa de Eliana Amaral?

- Eliana Amaral? - ela pergunta, me olhando atentamente - ela faleceu há alguns anos.

Fiquei sem reação por alguns segundos.

- Quem é você? - A senhora me perguntou gentilmente - porque está procurando por ela?

- Meu nome é Vanessa Martins, eu sou...

- Filha dela - ela completou com um ar de espanto - Meu Deus, como não notei as semelhanças?

Encarei-a surpresa.

- Eu sou Severina Amaral - ela continuou - tia da Eliana. Entre, por favor.

Entro, um pouco hesitante. Ela aponta para o sofá e eu me sento em um dos cantos, ela senta no canto oposto e me examina por alguns instantes. Eu torço para que ela fale algo porque eu, definitivamente, não sei onde foi parar a minha voz.

- Você está enorme! - ela diz, com um sorriso vacilante - Da última vez que eu lhe vi, você era um bebê tão pequenino.

-  O que aconteceu com ela? - pergunto - Quando foi que ela morreu?

De repente, seus olhos pareceram tristes.

- Faz uns 5 anos - ela responde, encarando um ponto na parede - Ela teve um câncer.

Uma lágrima silenciosa rolou pelo meu rosto e eu a enxugo rapidamente.

- Faz mais ou menos esse tempo que eu venho procurando por ela.

Ela se levantou, foi até a estante e trouxe um porta-retrato e me entregou. A mulher da foto tinha cabelos castanhos escuros e olhos cor de mel, como os meus, sorria abertamente.

- Ela era linda - murmuro

- Você é muito parecida com ela. - Severina me diz, suavemente.

- Eu queria saber a história dela - devolvo o porta-retrato - porque ela me deixou em um orfanato.

- Sabe, Vanessa, tem uma coisa que eu venho guardando pra você há 5 anos. - ela diz, levantando-se - espere um minuto.

Assinto e ela desaparece em um corredor estreito. Poucos minutos depois, ela retorna com um papel amarelado, dobrado nas mãos, e me entrega.

- O que é isso? - pergunto

- Uma carta.

- Uma carta? - pergunto surpresa.

- Sim, uma carta que a sua mãe escreveu antes de morrer e me pediu que entregasse a você, caso algum dia você procurasse por ela.

Minhas mãos tremem ao tocar no papel.

- Você aceita um café ou um suco? - ela pergunta. Pelo menos, eu acho que foi isso que ela perguntou, porque minha atenção está toda voltada para o papel amarelado nas minhas mãos.

- Não, obrigada - respondo, levantando-me - eu preciso ir.

Caminho até o meu carro, abro a porta e entro. Só então, me permito abrir aquela carta.

As letras estão tremidas e um pouco desorganizadas e eu não posso deixar de imaginar a minha mãe, em seu leito de morte escrevendo-a para mim.

"Querida filha, 
Se você está lendo essa carta, certamente eu já terei partido. Mas não posso ir sem antes lhe contar a minha história, a nossa história.
Eu tinha apenas 16 anos, era uma menina irresponsável. Quando contei pro meu namorado que estava grávida, ele disse pra eu me virar, que isso não era problema dele. Eu fiquei desesperada, meus pais eram muito rígidos e conservadores, se descobrissem a minha gravidez, me mandariam embora de casa. Eu escondi a barriga como pude e quando completei 6 meses, fui para casa de uma tia, na cidade. Ela trabalhava como empregada em uma casa e morava em um quartinho nos fundos. Eu disse aos meus pais que iria trabalhar com ela.
Eu passei 3 meses escondida no quartinho, porque os patrões dela não gostavam que ela levasse outras pessoas pra lá. Você nasceu lá no quartinho mesmo, por sorte, os patrões da minha tia tinham viajado, senão tinham descoberto, porque você chorava tão alto. Era a garotinha mais linda que eu já tinha visto.
Abrir mão de você foi a coisa mais difícil que eu já fiz na minha vida. Eu nem tive coragem de ir até o orfanato, minha tia que levou você lá. 
Eu passei dias chorando sem parar, repetindo para mim mesma que eu era um monstro por ter abandonado minha própria filha, então um dia minha tia me disse uma coisa que eu nunca esqueci. Ela me disse: 'Às vezes, a gente precisa fazer coisas ruins pra ter resultados bons, o que você fez parece muito ruim agora, mas foi o melhor que você podia ter feito pela sua filha'. Eu me apeguei a essas palavras com toda força que eu tinha e sempre que pensava em você, imaginava um futuro lindo e feliz.
Poucos dias depois do seu nascimento, eu voltei para a casa dos meus pais, eles nunca desconfiaram de nada. Quase um mês depois, minha tia veio nos visitar e me disse que conhecia uma pessoa no orfanato e tinha descoberto que você tinha sido adotada por um casal de pessoas boas e que eles tinham lhe dado o nome de Vanessa, que significa 'como uma borboleta'. Eu fiquei tão feliz por eles terem escolhido esse nome, sempre amei as borboletas. Depois disso, passei a pensar em você como uma borboleta linda e colorida, vivendo para alegrar a vida das pessoas.
Filha, eu espero ter feito a coisa certa ao deixar você no orfanato, se eu não fiz, por favor, me perdoe.
Eu só queria que você soubesse que desde o dia em que eu botei os olhos em você até hoje, eu nunca deixei de lhe amar e nem por um dia me esqueci de você e para onde quer que eu vá, eu sempre estarei olhando por você.
Com amor, 
Sua mãe"

Termino de ler a carta com os olhos inundados de lágrimas.

- Sabe mãe - eu digo, olhando para  as palavras dela - você fez a coisa certa. Onde quer que você esteja, eu espero que você escute isso.

________________________

Essa postagem faz parte do projeto Mais Que Palavras, onde todos os meses escrevemos sobre um tema diferente. O tema de Março é: Às vezes, a gente precisa fazer coisas ruins para ter resultados bons. 

Leia outros textos do projeto: Daniela | Nilzete 

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Postado por Ellem Barboza

Pernambucana, cristã, leitora compulsiva, viciada em música e colecionadora de primaveras e sonhos.



4 comentários

  1. Que crônica linda. Nunca havia ouvido essa frase e se não tivesse lido esse texto detalhando dessa forma com certeza discordaria da mesma. Amei o post *-*
    Bjnhs

    http://karolinekmnunes.blogspot.com.br/2016/03/642-coisas-sobre-as-quais-escrever.html

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  2. Amei o seu texto e sua interpretação acerca do tema: adoção serviu como uma luva. Parabéns!

    Um beijo.

    www.sinhamocha.com

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  3. Que lindo o texto! Estou impressionada com o sentido que você deu à frase e ao tema. Muito, muito bom.

    Beijos

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  4. Belo texto! A forma como voce escreve é linda!

    blogquebrandobarreiras.com

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