01/01/2016

Feliz recomeço!


É tarde da noite, eu estou voltando do trabalho. Pra mim é como outro dia qualquer, mas as pessoas à minha volta parecem não pensar assim. Crianças brincam gritando na rua, pessoas passam apressadas por mim, rindo e cantando, algumas carregando fogos de artifício nas mãos.

É quase meia-noite do dia 31 de dezembro e é claro, a cidade está uma loucura.

Tudo o que eu queria era chegar em casa, deitar na minha cama e desfrutar de uma boa noite de sono, mas sei que isso não será possível. O pessoal da pensão onde vivo com certeza está fazendo uma festança daquelas.

Decido que não vou para casa agora e começo a caminhar sem destino, em direção a algum lugar silencioso.

Faz algum tempo que deixei de "comemorar" a virada do ano. É só mais um dia, mais uma noite, nada de diferente.

Enquanto caminho, começo a me lembrar do tempo em que as coisas não eram assim, do tempo em que eu passava todas as viradas de ano com a minha família. Papai dizia que era sagrado, que só assim a família continuaria unida no ano seguinte.
Papai. Como eu sinto falta dele. 

Lembro-me do dia em que decidi sair de casa. Tudo o que eu queria era dar uma vida melhor para a minha família. 

"Seja feliz, minha filha. Que Deus lhe abençoe", foram as últimas palavras que eu ouvi do meu pai. E então parti rumo à cidade grande carregando apenas algumas mudas de roupa e o coração cheio de sonhos. Eu só tinha 15 anos.

E hoje, tantos anos depois, só tenho mesmo a lembrança daquela garotinha ingênua e sonhadora. A mulher que eu me tornei não sonha mais, ela sabe que é perda de tempo. Sonhos só geram decepções e eu estou cansada disso.

Tudo deu errado pra mim. Não pude ajudar minha família e a vergonha pelo fracasso é tão grande, que nunca mais pude procurá-los.

Espanto aquelas lembranças e continuo caminhando para longe do barulho, até que encontro um parque. Entro e, para a minha surpresa, percebo que não estou sozinha como desejava. Há um senhor idoso sentado em um dos bancos, olhando as estrelas.

Não sei bem o porquê, mas me sento ao seu lado. 

Ele olha para mim e sorri, um sorriso aberto, que deixa os cantos dos seus olhos mais enrugados. 
Sorriso de volta e me pego tentando lembrar qual foi a última vez que sorri. Acho que já faz algum tempo.

- Você tem um sorriso lindo, minha jovem - ele diz, voltando a olhar pró céu.

- Obrigada - respondo, sorrindo outra vez. 

Uma vez me disseram que sorrisos são contagiantes, acho que é mesmo verdade.

- Sabe, a virada do ano é uma das minhas datas favoritas. - ele diz, ainda mirando o alto.

Acho aquilo um pouco estranho. Por que uma pessoa que gosta tando do réveillon passaria a data
sozinha no banco de um parque?

- Ano Novo sempre me inspira recomeços. - ele continua, sempre olhando para o alto - É como se o ano estivesse totalmente novo e nós pudéssemos fazer qualquer coisa com ele. Eu gosto muito disso, de recomeços, quero dizer. É preciso muita coragem pra recomeçar, sonhar outra vez, abrir mão dos sonhos antigos e seguir buscando um novo sentido para a sua vida. Isso é recomeçar, é como criar uma nova vida, desenhar um novo futuro, sabe?! É como fazer nascer uma flor no meio de escombros.

Ele sorri de leve e olha para mim. O olhar dele tem tanta paz e serenidade, que me faz lembrar do mar. Sorrio outra vez.

- Sabe, menina, - ele disse, olhando nos meus olhos - esse ano que está terminando foi muito difícil pra mim. Perdi as duas pessoas que eu mais amava na vida. Só Deus sabe o quanto eu sofri e quase morri por causa disso. - havia tristeza em seus olhos e eu tive a impressão que ele fosse chorar. - Mas daqui a alguns minutos, os fogos irão brilhar bem ali - ele apontou para o céu - e isso será a largada para a minha nova vida. Nunca esquecerei as pessoas que perdi, irei amá-las para sempre, mas a tristeza, essa eu vou deixar no "ano velho" e para o ano novo, levarei apenas a minha vontade de viver. Elas se foram, mas eu ainda estou aqui, não sei por quanto tempo, mas estou aqui. Ainda posso fazer a diferença, mesmo que seja apenas na minha própria vida.

Enquanto aquele senhor falava, um pensamento ganhava força dentro de mim. Eu já tinha pensado nisso tantas vezes, mas agora era diferente, aquelas palavras tinham injetado coragem em mim. Neste momento, não era mais um pensamento fugaz ou uma ideia distante, era uma decisão. Eu precisava recomeçar.

Levanto subitamente, atraindo a atenção do senhor. E então, o show começa. Olhamos os dois para o céu. Fogos de artifício de todas as cores cruzam o céu, traçando formatos diferentes e tão lindos. Eu posso jurar que nunca vi um espetáculo tão maravilhoso em toda a minha vida. Não havia nada de especial nos fogos, na verdade, eu desconfiava que o especial estava começando a nascer em mim.

Uma lágrima de emoção rolou pelo meu rosto e eu soube que era tempo de partir outra vez. Era tempo de voltar ao meu lugar.

- Feliz ano novo pro senhor! - eu disse, sorrindo.

- Feliz recomeço pra você! - ele me respondeu, também sorrindo.

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Esse texto é referente ao Projeto 642 coisas sobre as quais escrever.
Tema 48: Nunca subestime a vida dos velhos sentados nos bancos dos parques.

Feliz 2016 pra vocês, pessoal, que esse ano seja muito especial para todos nós.
Beijos e até a próxima!

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Postado por Ellem Barboza

Pernambucana, cristã, leitora compulsiva, viciada em música e colecionadora de primaveras e sonhos.



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