29/09/2015

De repente, choveu dentro de mim

Foto via Pinterest

Estava cada vez mais difícil me movimentar na mata. Já fazia um tempo que estávamos correndo e o meu corpo estava começando a sentir as consequências de dois dias sem comer.

James percebe que estou ficando pra trás e pega a minha mão. Em um impulso, puxo a mão com força. Não consigo confiar nele, não sei quais foram seus motivos para me resgatar.

- Helena! - vejo uma pontinha de mágoa em seu olhar, mas não me importo.

Eu que deveria estar magoada, afinal ele me enganou, traiu a minha confiança duas vezes. Mas eu não estou magoada, estou mais que isso. Estou irritada, furiosa. A minha vontade é apertar o pescoço dele até que ele sinta tudo o que eu senti nesses últimos dois dias por causa dele. E ao mesmo tempo, desejo que ele me explique algo que faça sentido, quero que ele me diga que não foi somente por maldade que me entregou nas mãos da pessoa que mais me odeia nesse lugar.

- Precisamos ir rápido. - ele continuou com a mão estendida. Ouvi o som da cavalaria, ele estava certo, precisávamos correr.

Estendi a mão, ainda um pouco relutante e ele a pegou. Recomeçamos a corrida em silêncio absoluto.

Pouco tempo depois, a chuva começou. O céu estava limpo e de repente foi coberto por núvens escuras. Nos entreolhamos, sem parar a corrida. Sabíamos exatamente o que estava acontecendo. Minha tia tinha descoberto a minha fuga e a julgar pela intensidade do temporal, ela devia estar bastante irritada.

Sim, minha tia costumava demonstrar suas emoções através do clima.

Em poucos minutos, tudo estava encharcado, nossos pés afundavam nas poças de lama que tinham se formado. Um raio cruzou o céu e caiu numa árvore próxima, segundos depois, ouvimos o som ensurdecedor de um trovão.

- Temos que encontrar algum lugar para nos proteger dessa tempestade. - James parou, virando pra mim.

Não consigo evitar olhar pro meu braço direito.

Ele desvia os olhos e eu posso jurar que vejo uma pontada de culpa neles.

Se não fosse aquela pulseira maldita que ele mesmo havia colocado para anular meus poderes, eu poderia usar a magia para nos proteger. Mas não vou discutir isso agora. Não quando estou correndo o risco de ter meu corpo partido ao meio por um raio.

- Eu conheço uma cabana aqui perto, vamos! - digo, já começando a caminhar na frente.Por sorte, eu conheço essa floresta como a palma da minha mão.

A cabana ficava há alguns metros e logo chegamos. Era um lugar abandonado, que ninguém conhecia, ficava escondida entre alguns arbustos.

Fazia anos que eu não pisava ali. Eu costumava passar horas e até dias por lá, antigamente. Era como um refúgio pra mim.

Ela não tinha mudado nada, observei. Empurro a porta de madeira e entramos.

James acende a lareira, enquanto torço meu cabelo ensopado. Estávamos tremendo de frio.

- E então, quando você pretende me contar o que está acontecendo? - perguntei secamente logo que o fogo foi aceso.

- Você não pode apenas me agradecer por ter te tirado daquela prisão imunda? - seu rosto estava impassível e eu tive a impressão de que nem ele mesmo acreditava no que tinha acabado de falar.

Minha irritação foi multiplicada por dez, ao ouvir isso.

- Claro, claro - minha voz estava carregada de sarcasmo. - e pelo que mais eu devo lhe agradecer? Por isto? - levantei o braço direito.

Minha intenção era mostrar a pulseira, mas meus pulsos estavam horrivelmente machucados pelas correntes de ferro, hematomas se misturavam a cortes, que ainda sangravam. Foi nisso que os olhos dele se detiveram.

Ele deu dois passos largos na minha direção e parou bruscamente há alguns centímetros de mim. Umedeceu os lábios, parecia nervoso.

- Helena, se eu soubesse que ela iria fazer isso com você, eu nunca teria te entregado. - havia urgência em sua voz.

Ri, sem nenhum humor.

- E o que você imaginava que ela ia fazer? Me colocar dentro do palácio e me tratar como princesa? - gritei - Ela me odeia, James.

- Eu não queria ter feito isso, mas eu tive os meus motivos.

- E que motivos são esses? - indaguei, com a voz fria.

- Eu não quero falar sobre isso - ele encarou o chão e completou baixinho - mas são importantes.

- Se são tão importantes, por que você está aqui? Por que voltou pra me resgatar?

Ele umedeceu os lábios outra vez, desviou os olhos e depois voltou o olhar pra mim.

- Porque eu... eu estou apaixonado por você, Helena. - disse por fim.

Eu esperava que ele dissesse qualquer coisa, menos isso. De repente, foi como se toda a tempestade lá fora estivesse dentro de mim, lavando toda e qualquer certeza que eu tinha.

- O que? - O que ele queria dizer com isso? E por que raios meu coração estava quase saltando de dentro do peito?

- Faz dois dias que eu não consigo dormir, porque toda vez que eu fecho os olhos, penso em você. Eu achei que tivesse me sentindo culpado por ter enganado você, mas quando eu te vi naquela cela imunda, Helena,  meu coração quase explodiu aqui dentro. - ele apontou para o próprio peito - Tudo o que eu queria era te abraçar e te beijar e te proteger de tudo. Eu sei que você nunca vai me perdoar pelo que eu fiz, mas eu preciso que você acredite em mim quando digo que estou apaixonado por você, porque eu estou. - sua voz estava embargada - E eu nunca senti tanto por ter magoado alguém em toda a minha vida.

Minha mente gritava que eu não deveria ceder, que não deveria acreditar em nada do que ele estava dizendo.

Mas estava frio e o som da chuva batendo ritmicamente lá fora e aqui dentro abafava a minha razão.

E, céus, como eu tinha sentido falta dele!

Então ele abriu os braços e eu não tive outra opção senão me aconchegar neles.

E quando seus lábios enfim tocaram os meus, eu tive a estranha sensação de estar em casa.

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Essa postagem faz parte do projeto Mais Que Palavras, onde todos os meses escrevemos sobre um tema diferente. O tema de Setembro é: Um dia chuvoso em uma cabana.

Clique aqui para conferir os textos dos meses anteriores.

Beijos e a até a próxima!
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Postado por Ellem Barboza

Pernambucana, cristã, leitora compulsiva, viciada em música e colecionadora de primaveras e sonhos.



7 comentários

  1. Nossa que texto maravilhoso, eu estou aqui lendo novamente de tanto que gostei, a frase final foi espetacular. Parabéns viu!
    bjs

    http://cheirodapreta.blogspot.com.br/

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    1. Obrigada, fico muito feliz que tenhas gostado *---*

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  2. Oi ...
    Acho que de todos os textos que li desse projeto esse é o melhor !
    Simplesmente amei ... O final ficou lindo :)
    Beijos

    http://coisasdediane.blogspot.com.br/

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    1. Fico muito feliz que tenhas gostado :D
      Beijos

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  3. Oi Ellem,
    Adorei o tema do texto...ficou lindo.
    Quem ama sempre perdoa né...depois da chuva, vem o arco-íris. ♥

    até mais e tenha uma ótima sexta.
    Nana - Obsession Valley

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    1. Pois é, quem ama sempre perdoa <3
      Obrigada, Nana
      Beijos

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  4. Amei o texto! Também participei neste tema e adorei escrever o resultado final :)

    OUAT é mesmo de topo! Ai, não me diga isso! TBBT é tão booom! Não sei como não gostar :p Tens de assistir mais vezes!
    Ainda bem que não sou a única louca por séries!

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