28/07/2015

Querido diário

Foto via Pinterest
Querido diário,

É engraçado escrever isso, porque eu nunca tive um diário, mas agora que o meu melhor amigo partiu, preciso desabafar de alguma forma, não aguento mais tanta angústia dentro de mim.
Agora, fazem exatamente 10 horas que o John foi embora levando um pedaço do meu coração. Nunca achei que fosse sentir tanto a falta de alguém como estou sentindo a falta dele agora.
- São só dois anos, Lalá - era o que ele repetia sem parar nas últimas semanas. Mas eu sei que em dois anos tanta coisa pode acontecer, tanta coisa pode mudar, afinal são quase nove mil quilômetros de distância entre o Brasil e a Inglaterra, será que o nosso amor vai resistir a essa distância? Tenho muito medo de que a resposta seja não.
Eu sei que, que essa viagem é uma oportunidade incrível pra ele, o melhor emprego do mundo, como ele mesmo diz, mas tudo o que eu queria era que o John batesse agora na minha porta, com um buquê de flores vermelhas, podiam até estar murchas, eu nem ia me importar. Só queria que ele me dissesse que voltou por mim, que pensou em mim, que sentiu tanta saudade quanto eu tô sentindo agora. Eu sei que isso parece muito egoísta, mas era tudo o que eu queria.

- Toc-Toc - Ela ouve as batidas na porta do quarto. Certamente seria sua mãe, preocupada porque ela estava trancada no quarto desde que chegou do aeroporto.

Fechou o caderninho que tinha decidido usar como diário, enxugou o rosto com a manga do moletom e abriu a porta.

Não acreditou quando viu John lá, parado com um sorriso bobo no rosto. Piscou algumas vezes, deveria estar sonhando.

- John? - Ela perguntou ainda incrédula.

O sorriso dele se alargou e ele abraçou-a demoradamente, tirando seus pés do chão.

- Ah, Lalá, senti tanta saudade. - John disse, colocando-a no chão novamente - Eu sei que só se passaram algumas horas, mas pra mim foi uma eternidade, nunca aguentaria ficar dois anos inteiros longe de você.

Ela sorriu.

- E essas flores são pra você- Ele estendeu para ela um buquê de rosas vermelhas - estão meio murchas, porque comprei assim que o avião fez a primeira conexão, foi no exato momento em que eu percebi que não ia conseguir levar a viagem adiante. Então tentei comprar uma passagem de volta, mas só tinham pra amanhã. Acho que a atendente viu o tamanho da angústia em meus olhos, porque conseguiu adiantar a passagem pra agora.

Ela ficou olhando fixamente para as flores murchas. As coisas estavam acontecendo exatamente como ela havia acabado de escrever. Não podia ser verdade, com certeza estava sonhando, devia ter pego no sono enquanto escrevia no diário ou então estava ficando louca.

- Lalá? - A voz de John a despertou do devaneio - você está bem?

- Sim, mas ainda não tô acreditando nisso, John. Com certeza estou sonhando, e daqui a pouco vou acordar sozinha e vou ter mais uma crise de choro. - Os olhos dela estavam marejados

- Ei, eu tô aqui - ele puxou-a de encontro ao seu peito - Não vou a lugar nenhum, isso não é um sonho, meu amor.

Uma lágrima teimosa escapou do olho dela.

- Promete?

- Prometo - Ele segurou o rosto ela com as mãos e beijou-a. Naquele instante, pela primeira vez naquele dia caótico, ela sentiu que estava em casa, que ali, nos braços de John, era exatamente o lugar onde ela deveria estar.

- Mas John, e o seu emprego? - Olhou nos olhos dele, ainda presa em seu abraço - Você mesmo dizia que era o melhor emprego do mundo.

- E de que adiantaria ter o melhor emprego do mundo se eu tivesse que ficar longe do amor da minha vida?

Ela sorriu, ele sempre sabia como fazê-la sorrir.

De repente lembrou-se do diário e uma ideia meio louca lhe passou pela cabeça. Se o diário tinha realizado aquele desejo, talvez pudesse realizar mais um. Devo estar ficando maluca mesmo, pensou, mas não custava tentar.

Mordeu a pontinha do lábio inferior, como sempre fazia quando estava tramando algo.

- John?

- Lalá? - Ele semicerrou os olhos, tentando imaginar o que se passava na cabeça dela.

- E se eu fosse com você pra Londres?

- Seria perfeito, minha linda! - Ele sorriu, mas havia uma pontinha de tristeza - Mas tentamos isso, lembra? Você até se inscreveu naquele programa de intercâmbio, mas infelizmente não foi selecionada.

- Eu sei - Ela ainda tinha aquele sorriso travesso no rosto - Mas, às vezes, o universo resolve conspirar ao nosso favor.

Ela foi até a mesinha, abriu o diário e escreveu:

Querido diário,

Eu quero muito ir pra Londres com o John, talvez você possa fazer com que me aceitem naquele programa de intercâmbio ou algo assim. Será que você poderia me dar uma forcinha novamente?

- O que é isso que você tá escrevendo? - John se aproximou e ela fechou o diário.

- Meu diário - Aquele sorriso travesso ainda estava lá.

- E desde quando você tem um diário?

- Desde... - foi interrompida pelo toque do celular. - Alô?

- Gostaria de falar com a senhora Alane Caroline Martins - A mulher do outro lado da linha falou.

- Sou eu. - Alane respondeu prontamente.

- Senhora Alane, aqui é do programa de intercâmbio que a senhora se inscreveu há alguns meses atrás. Gostaríamos de lhe dizer que surgiu mais uma vaga e a senhora foi selecionada, ainda está interessada?

Por um instante, Alane não conseguiu responder, olhava fixamente para o diário. Não podia ser mais uma coincidência. Aquele diário tinha mesmo realizado o seu desejo. Piscou duas vezes para retornar à realidade.

- Sim, estou interessada sim- respondeu, levantando os olhos para John, que a encarava com uma expressão de curiosidade.

- Ótimo, então traga todos os seus documentos amanhã e sua viagem será agendada para a próxima semana.

Depois de desligar o telefone, Alane ainda não conseguia acreditar no que tinha acabado de ouvir.
John aproximou-se dela e fez um carinho no seu ombro, colocando-se por trás da cadeira em que ela estava

- Quem era, Lalá?

- John, você não vai acreditar. - levantou-se, virando para encará-lo - Nós vamos juntos pra Londres.

Ele ergueu uma sobrancelha.

- Como assim? Do que você tá falando?

- A mulher do intercâmbio acabou de me ligar. Parece que surgiu mais uma vaga, vou lá amanhã levar minha documentação.

Um sorriso largo surgiu no rosto dele, enquanto ele a abraçava, tirando-a do chão.

- Você está falando sério? Como isso pode ter acontecido?

Ela sorriu e olhou para o diário.

- Como eu disse, às vezes, o universo conspira ao nosso favor.


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Essa postagem faz parte do projeto Mais Que Palavras, onde todos os meses escrevemos sobre um tema diferente. O tema de Julho é E se você tivesse um caderno que tudo que você escrevesse nele se tornasse realidade?.

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Aproveita e confere os Posts dos outros participantes:
Every Day | Thoughts and Adventures | Princesas Adoradoras




Postado por Ellem Barboza

Pernambucana, cristã, leitora compulsiva, viciada em música e colecionadora de primaveras e sonhos.



8 comentários

  1. Oi Ellem,
    Ai gente, tava lendo o texto e começou a tocar One do U2 quase chorei, é sério.
    Quem dera ter um diário assim...
    E não sei como lidaria com um amor a distância assim.

    Linda a história de Alana e John ♥

    P.S.: Também prefiro ler antes de ver o filme, mas as vezes não dá. Tipo Maze Runner, eu tava tão curiosa que segunda, acabei assistindo filme e nem li ainda haha

    bjs e tenha uma ótima quarta.
    Nana - Obsession Valley

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    1. oun *----*
      Eu também não sei se daria conta de um amor a distancia :/

      Menina, eu tô doida pra ver Maze Runner, mas estou me segurando kkk

      Beijos

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  2. Oi Ellem amei a história, ficou bem criativa ! Seria muito bom ter um diário desse! haha
    Bjs linda!

    www.modernaamodaantiga.com.br

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    1. Ah, com certeza seria ótimo ter um diário desses :D
      Beijos

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  3. Que história mais fofa, seria tão perfeito ter um caderno assim! Acho que escreveria nele todos os dias!

    Beijos
    Dani Cruz
    blog-emcomum.blogspot.com.br
    Twitter - @blogemcomum / Insta - @blogemcomum / Fanpage Em Comum

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    1. Ah, com certeza, escreveria sempre nele <3
      Beijos

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  4. Fiquei sem meu melhor amigo :/
    Não por motivo de viagem, mas por motivo de se afastarmos mesmo :c
    www.iamcamilakellen.blogspot.com

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    1. Oun Camila, é tão ruim quando isso acontece, né?!
      Eu também já perdi algumas pessoas assim :/

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